Da vida

Uma felicidade que de repente é dor

Eu perdi! E tu ganhaste, Cytotec! Levaste-me o meu tudo que afinal era um nada vazio.

Levaste-me as lágrimas de alegria de ver um positivo nos testes de gravidez e deste-me lágrimas de dor, de tristeza, de julgamentos, de porquês.

Levaste-me os dias alegres em que toda eu era mil cuidados com a alimentação, com o triplo de água que passei a beber, com os esforços que não fazia, com os cremes anti-estrias que rapidamente comecei a por. Levaste-me a alegria esfuziante de contar a novidade aos futuros avós e amigos mais próximos. Os planos de vida a três passaram a ter lugar na nossa casa. Levaste as discussões felizes acerca dos nomes para o nosso maior amor ou do lugar onde iria nascer.

Também me levaste as dores no peito que já nem conseguia dormir de bruços, as dores nas costas e a “moinha” na barriga. Levaste-me as horas que de repente passei à frente do espelho a avaliar se a barriga tinha crescido. Levaste-me as conversas e as caricias que trocava com ele. Ou com ela. Eu queria uma ela. O Pai queria uma ela. Mas eu achava que era um ele. E estava feliz, meu Deus que felicidade imensa saber que sendo um ele ou uma ela, era indiferente, eu iria ser mãe, um filho tão desejado.

Felicidade não era o nosso nome do meio. Era o nosso nome completo.

Até que chega o monitor a preto e branco e umas palavras amargas mas atenciosas e criteriosamente escolhidas, a dizer que “a gravidez parou e não evoluiu”. Conformam dizendo que é uma situação que acontece em muitas gravidezes, para eu não me sentir culpada com o que aconteceu porque não foi nada que eu pudesse ter feito, que o corpo é rei e rejeitou logo à partida algo que não estava bem, que somos saudáveis e juntos conseguimos engravidar, que, que que… muitos “ques” que foram cuidadosamente e carinhosamente pronunciados pela boca da médica, mas que eu deixei de ouvir. De repente o meu cérebro parou, bloqueou no pensamento “quero ir para casa, quero ir para casa, não quero mais estar aqui” o meu cérebro e o meu coração apertadinho a controlar um oceano de lágrimas só gritavam “quero ir para casa!”.

Aqui na Dinamarca só se toma uma decisão médica com a opinião de um segundo médico. aguardei que o segundo médico viesse e chegasse à mesma conclusão do meu “tudo-nada” e a seguir foram-me dadas duas opções para expulsão: com cirurgia ou com comprimidos em casa.

Agora sei que não fiz a escolha mais acertada, mas o meu cérebro só gritava “quero ir para casa” e então decidi fazer a expulsão através de comprimidos.

Foi aí que nos conhecemos, Cytotec!

Lá venho para casa com o “kit aborto” fornecido pelo hospital.

Só sei que não me lembro de nada até chegar a casa, o meu cérebro, o meu coração, o meu corpo, tudo se aliou à gravidez que tinha parado e todos pararam também.

Só sei que controlei as lágrimas até chegar onde tanto desejava, a casa. Depois chorei, gritei, solucei e entreguei-me àquela dor que não era física mas que era tão forte.

Que dor meu Deus. Eu queria tanto este filho, ele já fazia parte dos nossos dias e das nossas noites. Já éramos três. E agora ia ter de fazer uma expulsão, ia ter de fazer sair aquilo que tinha sido uma alegria e felicidade no último mês.

Até que chegas tu Cytotec, assim cara a cara. Não fizeste o teu efeito nas primeiras quatro horas e tive de te repetir. Apenas no dia seguinte mostraste do que és capaz. Fizeste o que era o meu “tudo-nada” sair. Mas não satisfeito deste-me dores, muitas, afrontamentos, enjoos que nem os paracetamol e ibuprofeno conseguiram salvar.

Uma semana depois sabemos que não foste eficaz e teria de ir fazer uma mini cirurgia, uma curetagem.

No dia seguinte lá fomos nós novamente. Fui internada de manhã, preparada para a mini-cirurgia. Percorri o hospital deitada numa cama e conduzida por um senhor dinamarquês muito bem disposto mas que não pronunciava uma palavra de inglês.

Senti o sabor da anestesia geral e apaguei. Os médicos iriam tratar de limpar o meu útero e quando acordasse já tudo teria passado.

Tive alta no final do dia e voltei para casa com indicação de repouso.

Passada uma semana, voltei novamente ao médico onde se confirmou que finalmente estava tudo ok.

Com dor e aperto, este episódio tinha chegado ao fim.

Passou. Terminou. Doeu. Doi. E vai continuar a doer.

Adeus Cytotec. Não te quero voltar a ver. Nunca mais!

 

 

Infelizmente é uma situação muito comum nas primeiras 12 semanas de gestação. Acontece em 23% dos casos. Muitas vezes a mulher nem se apercebe que esteve grávida e o corpo faz a expulsão por si só. Eu tive um aborto retido numa gravidez não evolutiva. Tive de o provocar.

É uma dor gigante e só quem infelizmente passa por esta situação sabe avaliar. Não acontece só aos outros. Aconteceu comigo. É uma felicidade imensa que de repente se torna numa dor inexplicável. Mas com o passar dos dias, vamos aceitando. Chorei e tive os meus momentos de dor. Não esquecemos. Mas o tempo cura tudo. Temos de ter fé e acreditar que se não aconteceu foi porque não tinha de acontecer agora. Tudo acontece quando tiver de ser.

E os maridos, como ficam nesta história toda?! Ficam com o coração apertadinho e a sofrer por nós e por não poderem fazer nada para nos aliviar a dor. Eles  também iam ser Pais como nós iríamos ser Mães. Eles também tiveram a sua perda. Eles mesmo a sofrer estão ali a dar-nos a mão, a acalmar e dar confiança de que tudo vai correr bem.

E um dia vai correr bem 😉

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